Incertezas sobre Flávio Bolsonaro crescem, e parte da direita já busca alternativas

Desde que anunciou que havia sido escolhido por Jair Bolsonaro para representá-lo na disputa pela Presidência da República, há pouco mais de um mês, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho primogênito do ex-presidente, tem batido em várias portas. Encontrou-se com caciques do Centrão, fez duas reuniões com empresários em São Paulo, procurou ex-ministros do pai, buscou influenciadores, como Pablo Marçal, e peregrinou por templos religiosos. A maratona visa dar mais consistência a sua candidatura, recebida com muito ceticismo, não só no meio político, mas em endereços importantes do establishment econômico. A despeito de as primeiras pesquisas o colocarem em boa posição na corrida, ele saiu das reuniões com quase nada. Embora tenha um sobrenome de peso e um contingente expressivo de apoiadores à direita, há obstáculos bastante relevantes no seu caminho ao Palácio do Planalto — e, por isso, muitas dúvidas sobre se ele seria o nome certo para tentar vencer Lula em outubro.

Um dos pontos que mais despertam incertezas é se ele possui capacidade para estender o seu eleitorado para além dos muros do bolsonarismo. Pesquisa Genial/Quaest de dezembro mostra que ele tem 36% no duelo com Lula (que teria 46%) no segundo turno — percentual semelhante ao dos governadores Tarcísio de Freitas (SP) e Ratinho Junior (PR), que teriam 35%. O problema, no entanto, é outro: o mesmo levantamento mostra que 60% do eleitorado não votaria no senador de jeito nenhum, taxa igual à do pai e maior que a de todos os outros, inclusive Lula (54%). “Começar com tanta rejeição é um desafio e mostra que pode ter um teto para o crescimento dele”, aponta Márcia Cavallari, diretora do Ipsos-Ipec.

Há mais de um motivo para justificar uma recusa tão alta. Muito se deve ao sobrenome e ao fastio do eleitorado com a repetição de um duelo Lula x Bolsonaro. Pesa também o histórico de suspeitas sobre Flávio, como o caso da rachadinha quando era deputado no Rio, a compra de uma mansão em Brasília em 2021 e as relações com nomes como o capitão Adriano da Nóbrega, morto em 2020 e chefe da milícia Escritório do Crime (Flávio empregou a mãe e a esposa dele em seu gabinete). “Além de Flávio ter um teto de vidro, também tem o cansaço do eleitor moderado com o nome Bolsonaro e com a polarização”, diz Yuri Sanches, diretor político da AtlasIntel. “O nome dele traz um passivo reputacional. As pesquisas mostram o brasileiro cansado da polarização. Quanto mais esticar essa corda, mais difícil será se eleger”, diz Cavallari.

A recusa do eleitorado alavanca outra rejeição, esta mais pragmática: a do sistema político. Partidos empenhados em construir uma alternativa a Lula pela direita, como PP, PSD, União Brasil e Republicanos, não abraçaram a candidatura. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, diz que um apoio dependeria de ele mostrar viabilidade. “Tenho muita lealdade e carinho por ele e por Bolsonaro, mas meu compromisso é com o PP. A candidatura dele favorece candidatos do PL, e nossos deputados não têm esse perfil, são mais de centro”, afirmou. Em uma reunião, Ciro afirmou a Flávio que, para ganhar a eleição, ele precisaria vir para o centro, que é, na visão dele, quem irá decidir a eleição. “Também disse que ele precisava moldar o seu discurso agora”, relembra o cacique do Centrão.

NO PÁREO - Tarcísio: apesar da candidatura de Flávio, ele segue sendo o preferido do empresariado, do agro e do mercado
NO PÁREO - Tarcísio: apesar da candidatura de Flávio, ele segue sendo o preferido do empresariado, do agro e do mercado (Raquel Martins/Governo de SP//)

Difícil, no entanto, acreditar que Flávio irá levar sua pregação mais ao centro. Nos EUA, em visita ao irmão exilado, sinalizou que pode indicar Eduardo Bolsonaro à chefia do Itamaraty em caso de vitória. Na mesma viagem, deu uma entrevista ao influenciador Paulo Figueiredo, neto do último presidente da ditadura militar, general João Baptista Figueiredo, e denunciado pela trama golpista no STF. Posicionado debaixo do retrato do ditador, Flávio tentou se apresentar como “um Bolsonaro que se vacinou”, mas atacou o Supremo, o ministro Alexandre de Moraes, a lisura da eleição de 2022 e, como o pai, lançou dúvidas sobre as urnas eletrônicas. Também elogiou o modelo linha-dura nas prisões adotado por Nayib Bukele, presidente de El Salvador. “Temos que construir escola, mas temos que construir muitos presídios, porque as pessoas têm que cumprir a pena a que foram condenadas”, disse.

Além do discurso radical bolsonarista, pouco se sabe sobre as ideias de Flávio para o país. Nos últimos dias, ele tem dito que irá dar continuidade ao trabalho de Paulo Guedes, ministro da Economia na gestão de seu pai, e vive repetindo que irá aplicar “um tesouraço” em gastos e impostos. Para o senador Carlos Portinho (PL-RJ), o problema é menor do que parece. “O eleitor que vota em um Bolsonaro sabe o que esperar do governo: menos impostos, menos Brasília e mais Brasil”, afirma. Aliados, porém, admitem que uma agenda própria de campanha ainda está em construção. “Talvez seja o nosso grande desafio”, diz o deputado Filipe Barros (PL-PR), que tem sugerido ideias a Flávio, como um programa de reindustrialização do Nordeste, que é reduto eleitoral da esquerda.

DESCRENTE - Silas Malafaia: lideranças evangélicas não apoiam a pretensão
DESCRENTE - Silas Malafaia: lideranças evangélicas não apoiam a pretensão (Marina Uezima/Brazil Photo Press/AFP)

O sobrenome Bolsonaro, embora ajude a colocá-lo em boa posição para a largada, também é um problema. Uma das fontes de desgaste é seu irmão, Eduardo Bolsonaro, que perdeu o mandato de deputado e virou réu no Supremo por conta de sua atuação contra o Brasil a partir dos Estados Unidos. “Para parcela da população, Flávio é apenas o filho de Bolsonaro. Muitas pessoas o confundem com o Eduardo”, diz o ex-ministro da Cidadania João Roma, que vive na Bahia. Ele acredita que, à medida que os eleitores passarem a distingui-lo do pai e dos irmãos, a rejeição ao senador irá diminuir.

O fato de estar ainda muito adernado à direita, porém, não ajuda Flávio a dominar esse campo ideológico. O agronegócio rejeita a candidatura e chegou a bancar uma pesquisa no ano passado testando outros nomes. Principal organizador de manifestações bolsonaristas e um dos líderes evangélicos do país, o pastor Silas Malafaia se opõe à pretensão do Zero Um. “A questão é: qual é o melhor candidato para enfrentar esse momento político? Sou aliado, mas não sou alienado”, diz. Outro ponto de atenção é a posição da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que chegou a ser cotada como presidenciável, mas perdeu a indicação para Flávio e não tem se envolvido na campanha do enteado. Nos bastidores, ainda se discute uma chapa em que ela seja vice, de preferência de Tarcísio. Além de Malafaia e Michelle, outros bolsonaristas podem não ter abraçado o Zero Um, tanto que nas pesquisas ele não atinge os percentuais de voto do pai. “Flávio pode ter uma rejeição maior que a do pai por algumas razões. Uma bem simples: ele não é o pai. Aquilo que alguns apoiadores atribuem ao pai como algo positivo, ele não possui”, avalia Mayra Goulart, cientista política da UFRJ.

Uma preocupação adicional é que há uma certa satisfação no entorno de Lula com o seu nome, uma vez que o consideram um candidato mais fácil de derrotar. “Até agora, ninguém do PT atacou o Flávio. É como se estivessem falando ‘venha, é o melhor para a gente’. Estão só esperando a eleição começar para atacar”, aponta Malafaia. Um dos problemas para Flávio é a dificuldade que ele teria para falar de corrupção, por exemplo, já que o tema da rachadinha certamente será explorado pela esquerda. Há outros riscos para o Zero Um. “Se Flávio não vencer, perde o foro privilegiado e fica exposto. Ele já tem o pai preso e o irmão correndo risco de prisão”, diz um aliado da família.

PLANO B - Ciro Nogueira: o Centrão sonha com nome fora da polarização
PLANO B - Ciro Nogueira: o Centrão sonha com nome fora da polarização (Andressa Anholete/Ag. Senado)

Com tudo isso, cresce a inquietação no Centrão em buscar uma alternativa que não seja repetir o duelo de rejeições entre lulismo e bolsonarismo que se viu em 2022. Tarcísio segue sendo o nome mais cobiçado. Preferido do mercado financeiro, do empresariado e do agronegócio, ele fez declarações protocolares de apoio a Flávio, mas não o citou em um único post desde que ele virou candidato. O governador tem 13 pontos a menos de rejeição que Flávio e, sem ele no páreo, largaria com ao menos sete partidos: Republicanos, União Brasil, PSD, PP, MDB, Podemos e PL. Mesmo de férias, o governador continuou de olho na política nacional. “A fórmula é simples! Feliz 2026 = Fora PT”, postou na virada do ano. Aliados de Flávio reconhecem o problema e acrescentam que, além de fazer desaparecer a sombra do governador, será necessário conseguir que ele se engaje na campanha de Flávio, visto que a votação em São Paulo é fundamental ao projeto presidencial. “É a prioridade número 1, o próprio Flávio tem falado sobre isso”, diz Filipe Barros.

Diante da incerteza sobre a candidatura de Tarcísio, no entanto, a direita não bolsonarista se movimenta em busca de um plano B ou até um plano C. Além do governador paranaense Ratinho Junior, que pode virar uma opção, o Centrão tem flertado com outros nomes, como o da ex-ministra e senadora Tereza Cristina (PP-MS). Os mais desesperados com a falta de alternativas voltaram a falar no apresentador de TV Luciano Huck, que foi especulado em 2022. “Eu tenho conversado com ele. Acho que poderia ser uma opção. Só falei por telefone, ele está de férias, mas está disposto a conversar”, conta o deputado Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, que disse que o nome de Huck será testado nas próximas pesquisas.

A definição sobre quem será o principal adversário de Lula em outubro não deve demorar. Até o dia 2 de abril, governadores como Tarcísio e Ratinho Junior terão de deixar o cargo se quiserem tentar a Presidência. Até lá, Flávio terá de bater em muitas portas antes que elas se fechem de vez. Na última semana, voltou a defender que sua candidatura é viável. “Você que está apostando em um balão de ensaio, que é algo que ali no final de março, começo de abril, eu vou voltar atrás: a chance é zero”, disse. A repetição obrigatória do mantra de que não vai desistir é outra prova da fragilidade da candidatura.

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