A família do zelador Maurílio da Silva, atropelado e morto pelo estudante Arthur José Rodrigues, filho da prefeita de Pilar, Patrícia Farias, contestou o acordo prestar a ser firmado com o Ministério Público, liderado pela promotora Ismânia Pessoa, para livrar o acusado de responder criminalmente pela morte do trabalhador.
Em contato com a reportagem, uma sobrinha de Maurílio, que preferiu não revelar o nome, questionou os parâmetros usados para o acordo.
“Pelo amor de Deus isso não existe. É muito injusto. R$ 50 mil não vai comprar a vida dele. Ele [Arthur] é um assassino e o vídeo [que registrou o atropelamento] diz tudo. Tem provas, muitas provas. E o Ministério Público não vê isso por que? Porque o rapaz tem dinheiro e meu tio é pobre. Se fosse ao contrário, meu tio já estava atrás da grades”, criticou.
“Porque a justiça não está sendo correta, a mãe do rapaz paga em uma mensalidade de medicina mais de R$ 10 mil por mês, e vem oferecer R$ 50 mil pela a vida do meu tio? Isso é imoral. Acho que ele quer dar bem uma esmola, só pode, para o pessoal da família se calar. Se a justiça acha isso certo né, com certeza qualquer pessoa que ver o caso vai ver claramente, que ele matou meu tio, e uma vida não tem preço, é o que penso”.
Segundo a parente, a mãe do zelador e todos os familiares “ficaram muito mal” ao saber do acordo.
“Se fosse um caso que não tivesse provas, que não tivesse vídeo, que ainda iam investigar, poderia até [ocorrer o acordo]. Mas esse caso, pelo amor de Deus, tem vídeo, tem provas, tem pessoas que viram. Meu tio, eu estava com ele no [Hospital de] Trauma. Ele [Arthur] passou por cima do meu tio, ele quebrou tudo. Ele perfurou pulmões, quebrou costela, só Jesus na causa, eu que vi tudo, eu que tava com ele lá no Trauma. Eu que passei por isso, viver do sofrimento que ele passou, eu ainda cheguei a falar com ele, mas não resistiu. Foi uma dor para contar a minha mãe, meus familiares, que ele tinha falecido. Eu fiquei traumatizada, tô traumatizada até hoje. Mas ninguém quer saber da dor de ninguém não, a vida de um ser humano não importa mais. Quem morreu que se lasque”, desabafou.
Entre as condições impostas para livrar Arthur de condenação criminal estão:
– Pagamento de R$ 50 mil a título de reparação de danos aos familiares da vítima;
– Prestação pecuniária a entidade social;
– Suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) por seis meses.
Família briga por indenização na Justiça
Paralelamente ao processo criminal, a família do zelador Maurílio da Silva trava uma batalha judicial para ser indenizada por Arthur José Rodrigues e Patrícia Farias, prefeita de Pilar.
A mãe de Maurílio pede que Arthur e Patrícia sejam condenados a pagar uma indenização no valor de R$ 150 mil. Para defesa, esse é o valor que equivale a um ano de faculdade de medicina particular atualmente pago por Arthur.
Para a família do zelador, Arthur José Rodrigues agiu de forma grave ao dirigir sob efeito de álcool, invadir calçada e atingir uma pessoa que estava trabalhando.
“A conjugação desses fatores (embriaguez + invasão de calçada + fuga) transforma a culpa em um patamar que, no âmbito criminal, configura o dolo eventual (o agente assume o risco de produzir o resultado morte), e no cível, eleva o valor do dano moral devido à manifesta reprovabilidade social”, diz a defensora pública Lorena Cordeiro, que representa Terezinha da Silva, mãe de Maurílio.
Paralelamente, a Defensoria pede que a prefeita de Pilar, Patrícia Farias, também seja responsabilizada por ser a proprietária do veículo que o acusado transitava.
“Ao entregar o veículo a ARTHUR, mesmo que a título de empréstimo (comodato), PATRÍCIA assume o risco inerente à sua condução. Se o veículo é empregado em um ato ilícito que causa dano a terceiro, o proprietário é solidariamente responsável, pois falhou no dever de escolher a quem confiar o bem (culpa in eligendo) ou no dever de fiscalizar seu uso (culpa in vigilando)”, entende a defensora.
Acordo com MP
A Justiça da Paraíba marcou para o dia 4 de março de 2026 uma audiência para homologação do acordo que será firmado entre o Ministério Público da Paraíba (MPPB) e Arthur José Rodrigues de Farias, acusado de atropelar e matar o zelador Maurílio Silva de Araújo, em João Pessoa. O investigado é filho da prefeita de Pilar, Patrícia Farias.
O acidente ocorreu na Avenida Afonso Pena, na Capital, quando o condutor invadiu a calçada e atingiu o zelador, que realizava serviços de jardinagem, ao sair de uma festa de formatura e dirigir sob efeito de álcool. A vítima chegou a ser socorrida para o Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no dia 01 de maio.
Conforme apurou a reportagem, a defesa de Arthur foi quem sugeriu, no decorrer do inquérito, a celebração do acordo, sob o argumento que o réu preenchia os requisitos legais. Os advogados acostaram, ainda, um laudo médico atestando que o jovem é é diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH).
O Ministério Público optou por oferecer um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP), que é uma medida prevista em lei para casos em que o investigado não tem antecedentes criminais e aceita cumprir condições impostas pelo MP.
Com MaisPB





