Empatado com Flávio nas pesquisas, Lula intensifica anúncio de medidas eleitoreiras

O presidente Lula, dirigentes petistas e governistas proeminentes comemoraram quando o senador Flávio Bolsonaro anunciou que seria candidato ao Palácio do Planalto. Sem esconder a satisfação, tacharam o filho mais velho de Jair Bolsonaro de “adversário dos sonhos”, porque ele carregaria o alto nível de rejeição a seu sobrenome, não teria o carisma do pai nem contaria com o apoio entusiasmado de expoentes do Centrão, do mercado financeiro e do empresariado. Era tamanha a euforia que os petistas definiram como estratégia poupar o Zero Um de ataques até o registro das candidaturas e o início oficial da campanha eleitoral, a fim de não desidratá-lo e, assim, impedir que ele fosse substituído no páreo por outro nome, como o governador Tarcísio de Freitas, considerado pelos esquerdistas o quadro da direita mais difícil de ser derrotado. No PT, a postulação de Flávio Bolsonaro era vista como um passaporte seguro para a reeleição de Lula. A uma semana da votação, essa crença ruiu, obrigando o presidente a fazer uma série de manobras de emergência na tentativa de evitar um revés.

Segundo as pesquisas de intenção de voto, Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados nas simulações de segundo turno, sendo que em pelo menos uma delas o senador aparece numericamente à frente (veja o quadro). A novidade é o crescimento do oposicionista também nos cenários de primeiro turno, nos quais ele passou a empatar, dentro da margem de erro, com o presidente. O avanço do rival fez Lula intensificar o anúncio de medidas eleitoreiras e as promessas de apelo popular. Nem o discurso na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas — proferido na terça-feira 22, em Nova York — escapou da lógica de palanque. Em linha com seu antigo sonho de ser reconhecido como líder global e premiado com o Nobel da Paz, Lula criticou a derrocada do multilateralismo, os conflitos armados e as ameaças militares e até tarifárias feitas por grandes potências. Cuidadoso, ele não mencionou o nome de Donald Trump, a quem endereçou boa parte de sua pregação. Os assuntos da diplomacia, no entanto, logo deram lugar à eleição brasileira.

Gráfico de linhas mostrando a simulação de primeiro turno entre Lula e Flávio Bolsonaro entre beneficiários do Bolsa Família. Lula (linha vermelha) varia de 70% em 27 de julho para 64% em 21 de setembro. Flávio Bolsonaro (linha verde) varia de 18% para 17% no mesmo período

Numa sucessão de frases pensadas para render cortes para as redes sociais, Lula desfiou quase todo o seu rosário eleitoral. Mais uma vez, ele empunhou, por exemplo, a bandeira da soberania nacional: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. De forma indireta, criticou o suposto entreguismo de Flávio Bolsonaro, que estaria evidente, entre outros, no entusiasmo que o Zero Um demonstrou certa vez com a possibilidade de os Estados Unidos atacarem barcos de traficantes na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. “Não precisamos de porta-­aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, declarou.

FIÉIS - Bolsa Família: aumento às vésperas do pleito para segurar o voto dos beneficiários do programa social
FIÉIS - Bolsa Família: aumento às vésperas do pleito para segurar o voto dos beneficiários do programa social (Domingos Peixoto/Agência O Globo/.)

Tratando de pautas domésticas em um fórum destinado a debates de interesse global, Lula ainda defendeu o Pix e o fim da escala de trabalho 6×1, que contam com o apoio da maioria da população, e voltou a resumir a sucessão presidencial, como fez em 2022, a uma disputa entre democracia e autoritarismo. “Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”, afirmou. A campanha de Flávio Bolsonaro não gostou da exploração eleitoral do púlpito na ONU e recorreu ao TSE para impedir que a propaganda eleitoral do PT use trechos do discurso de Lula, que foi aplaudido em pelo menos três ocasiões.

DESENROLA - Endividados: um dos principais obstáculos para a reeleição
DESENROLA - Endividados: um dos principais obstáculos para a reeleição (Fabiano Rocha/Agência O Globo/.)

Já o escrete do presidente, acossado pelo temor de uma derrota, está empenhado num ajuste de rota. A ideia é que ele pose cada vez menos de governante ocupado com questões estratégicas e abrace cada vez mais a causa de candidato. Nos últimos meses, petistas reclamaram do fato de Lula fazer uma campanha descolada da realidade da maioria da população, priorizando temas como terras-raras e deixando em segundo plano a criminalidade e a carestia, exploradas à exaustão pelos adversários. Essas queixas produziram efeito. No último dia 17, o presidente anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família, programa que beneficia cerca de 50 milhões de pessoas. Divulgada a dezessete dias do primeiro turno, a medida custará 5,8 bilhões de reais neste ano e 22,7 bilhões de reais em 2027. O valor do repasse mínimo por família subirá de 600 reais para 691 reais.

GOVERNO - Bets: promessa de remediar uma situação que ele mesmo criou
GOVERNO - Bets: promessa de remediar uma situação que ele mesmo criou (Daniel Delmiro/Divulgação)

Como de praxe, o governo tentou rechaçar o evidente caráter eleitoreiro da iniciativa e disse que seu objetivo foi repor as perdas inflacionárias registradas desde 2023. Na prática, no entanto, Lula quer consolidar sua força na base da pirâmide social, que anda contrariada com o custo de vida. Levantamentos da BTG/Nexus revelam que as intenções de voto dos beneficiários do Bolsa Família nas simulações de primeiro turno têm variado. Nesse segmento, Lula chegou a ter 52 pontos de frente sobre Flávio Bolsonaro no final de julho. No início de setembro, a vantagem caiu para 25 pontos. Já na rodada divulgada no último dia 21, a diferença voltou a subir para 47 pontos. Especialistas dizem que essas oscilações expressivas são comuns nos subgrupos das pesquisas, que têm margens de erro bem maiores do que os tradicionais 2 pontos para mais ou para menos. Lula não quer ter dúvidas sobre o comportamento desse nicho. No caso dos beneficiários do Bolsa Família e dos mais pobres, a meta dele é conquistar e consolidar apoios e — tão importante quanto — garantir que seus eleitores votem.

REVÉS - Flávio: antes considerado um passaporte seguro para a reeleição de Lula, o senador de oposição agora é ameaça
REVÉS – Flávio: antes considerado um passaporte seguro para a reeleição de Lula, o senador de oposição agora é ameaça (Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro/.)

Em 2022, cerca de 20% da abstenção foi de cidadãos de baixa renda e baixa escolaridade. Dependendo da abstenção nesses grupos, não está descartada a possibilidade de Flávio Bolsonaro ficar em primeiro lugar até no primeiro turno. No entorno do senador, os mais entusiasmados nutrem a esperança de liquidar a fatura já no dia 4 de outubro. A VEJA, um dos coordenadores da campanha do Zero Um mostrou-se mais realista, dizendo que a sucessão presidencial terá dois turnos. Com sete candidaturas ao Planalto no currículo e recordista em vitórias via voto direto, Lula sabe da importância de chegar à rodada final sem passar a impressão de que será derrotado. Ele está seguindo à risca o mantra de sua pupila Dilma Rousseff, que consagrou a máxima segundo a qual se faz o diabo em época de eleição. O presidente também mantém a toada de seu antecessor Bolsonaro, o pai, que colocou na rua um pacote bilionário de bondades antes da eleição de 2022.

Gráfico de barras com título Polarização Cristalizada, mostrando intenção de voto para presidente em três pesquisas: Datafolha, Quaest e BTG/Nexus. Lula (vermelho) lidera com 39%, 37% e 40% respectivamente. Flávio Bolsonaro (verde) segue com 36%, 33% e 37%. Augusto Cury (rosa) tem 6% em todas. Ronaldo Caiado (azul) varia entre 4% e 5%. Renan Santos (verde-oliva) e Romeu Zema (laranja) têm entre 1% e 3%

Na época, o capitão aumentou o Bolsa Família em 50%, de 400 para 600 reais. Seu filho Flávio Bolsonaro, com conhecimento de causa, classificou o recente reajuste do Bolsa Família de ato de desespero: “Essa merreca? Não tem vergonha na cara não, Lula? Está achando que vai comprar o voto do pobre dando mais 90 reais por mês?”. As últimas propagandas eleitorais de Lula revelam a preocupação dele com o bolso do eleitor. Numa delas, o petista tratou basicamente do custo de vida, dizendo que era mais alto no governo Bolsonaro e que está fazendo o possível para reduzir os preços de alimentos e combustíveis. Foi uma reação à estratégia do Zero Um de produzir vídeos para as redes sociais nos quais faz compras nos supermercados, demonstra espanto com a carestia e conclui que falta dinheiro para encher o carrinho e fechar o mês. Durante a maior parte de seu terceiro mandato, o presidente se sentiu injustiçado porque, apesar do baixo desemprego e do aumento da renda média do trabalhador, a população de forma majoritária reprovava — e ainda reprova — a gestão econômica.

BÚSSOLA - Cury: os votos do escritor podem ser decisivos no segundo turno
BÚSSOLA - Cury: os votos do escritor podem ser decisivos no segundo turno (Marina Uezima/Brazil Photo Press/AFP)

Inconformados, petistas estrelados chegaram a reclamar de que o povo sofria de dissonância cognitiva. O queixume só demonstra como o partido se distanciou do chão de fábrica e demorou a reconhecer o peso negativo na popularidade presidencial do endividamento recorde das famílias brasileiras. Neste ano, já com a reeleição no horizonte, Lula abriu uma nova rodada de renegociação de débitos. Como ela não foi capaz de solucionar a questão, a equipe econômica trabalha em novas medidas para aliviar as finanças do eleitorado. Em outra de suas propagandas eleitorais, o presidente, que nunca foi de reconhecer os próprios erros, tentou terceirizar para as bets a responsabilidade pelo nível de endividamento. No vídeo, Lula ouve relatos de dependentes em apostas on-line que passaram a dever grandes quantias para agiotas e perderam bens, como carro e imóvel, em razão da jogatina. “Todo mundo sabe que eu tenho vontade de acabar com as bets”, declara o presidente na propaganda.

TRANSFERÊNCIA - Caiado: eleitores devem migrar para o candidato do PL
TRANSFERÊNCIA - Caiado: eleitores devem migrar para o candidato do PL (Aloisio Mauricio/Fotoarena/Agência O Globo/.)

Se agir agora contra a jogatina, o petista remediará uma situação para a qual contribuiu de forma decisiva. De olho numa perspectiva de arrecadação de 12 bilhões de reais anuais, Lula decidiu regulamentar o setor de apostas on-line, que funcionou livremente, à margem da lei, na gestão Bolsonaro. A legalização foi um passo acertado e rendeu dinheiro para o caixa da União, mas o Planalto não fez o suficiente para evitar um efeito colateral: trabalhadores comprometendo a renda com as bets e se endividando cada vez mais. Mais de 43 milhões de brasileiros já fizeram apostas eletrônicas. Só em 2025, foram desembolsados 62,5 bilhões de reais. “Ninguém pode gastar o leite da família jogando”, diz Lula na propaganda. Como o tema se tornou caro a uma parcela significativa do eleitorado, o presidente prepara medidas dedicadas a restringir a atuação das empresas do setor. Essas iniciativas são consideradas estratégicas para sensibilizar a parcela do eleitorado que não se alinha de forma automática nem a Lula nem a Flávio Bolsonaro.

Com a polarização cristalizada, os ditos independentes devem ser o fiel da balança da eleição. Eles fogem da guerra ideológica e querem soluções para as mazelas do dia a dia. Os demais concorrentes à Presidência sabem disso, tanto que priorizam temas candentes. Augusto Cury e Romeu Zema, por exemplo, cobram investigação dos ministros do Supremo suspeitos de participar da rede de traficâncias do ex-­banqueiro Daniel Vorcaro. Já Ronaldo Caiado e Renan Santos apostam as fichas na área da segurança pública. Nenhum deles parece ter chance de chegar ao segundo turno. Seus eleitores, conforme as pesquisas, devem migrar principalmente para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Embalado pelas pesquisas, o senador está se reaproximando de caciques do Centrão que preferiram até aqui a neutralidade na sucessão presidencial. A Lula resta tentar conquistar quem está indeciso ou não tem o voto consolidado. Nesse esforço, vale tudo, até prometer a distribuição de canetas emagrecedoras através do SUS, como ele fez recentemente. São as cartadas finais do presidente no cada vez mais disputado jogo da eleição presidencial.

Com Veja

COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA

Facebook
Twitter
WhatsApp
BV SITE – 728×90.jpg.jpeg