Como PL e PT investem pesado para ampliar bancadas no Senado

Está em jogo o controle de uma das mais poderosas arenas políticas do país

Motivos não faltam para o empenho dos dois partidos que lideram a polarização no país. O Senado vai renovar dois terços de suas cadeiras (54 de 81) e o desenho de seu perfil influenciará decisivamente o xadrez político nacional. Como Lula lembrou no Rio, não é pequena a possibilidade de ele ser reeleito e ter de enfrentar um Senado presidido por um bolsonarista, já que o PL é competitivo na maioria dos estados em que disputa o Senado e favorito em boa parte deles.

A principal fonte da cobiça pelo Senado, no entanto, são as prerrogativas que a Casa tem em relação ao Supremo Tribunal Federal. Do lado bolsonarista — que tem hoje a maior bancada, com quinze cadeiras, mas está longe de ter maioria — , o impeachment de ministros é um dos principais motes de campanha, explorado à exaustão na reta final da campanha. Isso ocorre na esteira das suspeitas envolvendo as relações de membros da Corte com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, em especial Alexandre de Moraes, de longe o maior alvo do bolsonarismo desde que relatou o processo que levou à prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro e centenas de pessoas acusadas de tentativa de golpe entre o final de 2022 e o início de 2023 — não por acaso, a pauta da direita no Senado também inclui a busca da anistia total aos condenados. “O plano do PL é ter senadores para emparedar o STF e aprovar com folga a anistia, enquanto o PT, sem condições de controlar a Câmara, busca no Senado um anteparo mínimo contra as agendas da direita”, explica Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP.

Infográfico sobre gastos de campanha para o Senado. O PL lidera com 100,3 milhões de reais, seguido por PT (57,2) e MDB (53,4). Dentre as 20 campanhas mais caras, 14 são do PL e PT. André do Prado (PL-SP) gastou 7 milhões, Simone Tebet (PSB-SP) 6,6 milhões e Geraldo Rufino (Podemos-SP) 6,5 milhões

Responsável por sabatinar e aprovar os indicados do Planalto ao STF, o Senado também terá papel estratégico em manter ou transformar drasticamente o perfil da Corte, hoje composta majoritariamente por ministros indicados pelo PT. Com a vaga de Luís Roberto Barroso ainda em aberto e três ministros (Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes) às vésperas da aposentadoria por idade, o próximo presidente terá a chance de emplacar nada menos que quatro aliados no Supremo. O sucesso, no entanto, dependerá do apoio entre os senadores — o que ficou claro em abril deste ano com a histórica rejeição de Jorge Messias, aliado de Lula, o primeiro nome vetado ao cargo em mais de 130 anos.

A tropa de choque de PT e PL que estará nas urnas não é desprezível. A sigla de Flávio Bolsonaro tem 33 candidatos envolvidos nessa disputa, com um gasto médio de 3,2 milhões por candidatura, enquanto a legenda de Lula terá dezenove competidores, com um investimento de 2,9 milhões em média cada um. Entre os nomes nos quais as legendas apostam estão pesos-pesados, como a ex-primeira-­dama Michelle Bolsonaro, no Distrito Federal, e o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL), dois dos mais comprometidos soldados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Do lado do PT, a infantaria tem nomes como a ex-presidente do partido Gleisi Hoffmann, no Paraná; o ex-ministro Rui Costa, na Bahia; e a ex-governadora Benedita da Silva, no Rio de Janeiro. De resto, a ofensiva conta com aliados importantes em outras legendas, como o deputado Guilherme Derrite (PP), em São Paulo, e Marcel van Hattem (Novo), no Rio Grande do Sul — ambos pela direita —, o senador Cid Gomes (PSB), no Ceará, e Helder Barbalho (MDB), no Pará — pela esquerda —, todos eles liderando a corrida ao Senado em seu estado na reta final.

TROPA - Derrite: nome estratégico da direita ganhou apoio de rival em São Paulo
TROPA - Derrite: nome estratégico da direita ganhou apoio de rival em São Paulo (@guilhermederrite/Instagram)

A definição da composição do Congresso será decisiva para o país, não apenas a partir de fevereiro de 2027, quando os novos eleitos tomarão posse. Já definido o desenho da Câmara e do Senado com o encerramento da votação, é quase certo que a perspectiva futura de poder comece a dar o tom já no andamento das pautas que o governo Lula gostaria de ver tocadas logo após o fechamento das urnas, como o fim da escala de trabalho 6×1, a PEC da Segurança Pública e a medida provisória que baniu as bets no país (veja a reportagem na pág. 48).

Terminada a corrida eleitoral pelas cadeiras do Senado, começará uma outra disputa, tão renhida quanto, pela cadeira mais importante da Casa. A depender do resultado das urnas, o presidente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já enfraquecido por suspeitas de relação imprópria com Daniel Vorcaro, reveladas por VEJA, ligará o “modo sobrevivência”, pensando na eleição em que tentará renovar seu posto, em fevereiro de 2027. Se a direita bolsonarista triunfar com larga margem na eleição, é certo que esse grupo terá um candidato fortíssimo ao posto, como o senador Rogério Marinho (PL-RN), hoje coordenador da campanha de Flávio. O cargo, um dos mais poderosos da República, concentra a atribuição de definir a pauta de votação — inclusive, de pedidos de impeachment e de CPI — , além de ter a competência exclusiva de convocar sessões do Congresso para avaliar vetos do Planalto a projetos de lei. A proximidade de Alcolumbre com o governo Lula e ministros do STF, bem como sua indisposição para pôr em votação pedidos de impeachment e anistia, desagrada ao PL e a boa parte da direita que deve emergir das urnas.

ESFORÇO - Tebet: a ex-ministra é aliada importante de Lula em plano para conquistar maioria no Senado
ESFORÇO - Tebet: a ex-ministra é aliada importante de Lula em plano para conquistar maioria no Senado (Campanha Simone Tebet/.)

Historicamente, o Senado sempre foi conhecido por ser uma arena com políticos mais experientes e, em razão disso, um ringue de debates mais austero, em contraposição à agitação que marca os embates na Câmara. Dos sete presidentes eleitos desde a redemocratização, quatro (José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso) ocuparam cargos no Senado antes da Presidência ou depois de deixá-la. De suas cadeiras também saíram alguns dos quadros mais competitivos para as eleições federais nas últimas décadas, como Aécio Neves, José Serra e Flávio Bolsonaro. O Senado também foi a arena que aprovou o impeachment de dois presidentes da República (Fernando Collor e Dilma Rousseff) e que emparedou João Goulart ao impor-lhe o parlamentarismo em 1961 e declarar vago seu cargo durante a intentona militar que consolidou o golpe de 1964.

A disputa pelo Senado ganhou relevância também pela incerteza que predomina na atual corrida presidencial, com a briga apertada entre Lula e Flávio. Para o PT e o PL, a Casa Alta será o front onde ocorrerão algumas das principais batalhas do próximo mandato, independentemente de o partido estar no governo ou na oposição. A preocupação agora é ampliar o tamanho de suas trincheiras.

Com Veja

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