O presidente Lula, dirigentes petistas e governistas proeminentes comemoraram quando o senador Flávio Bolsonaro anunciou que seria candidato ao Palácio do Planalto. Sem esconder a satisfação, tacharam o filho mais velho de Jair Bolsonaro de “adversário dos sonhos”, porque ele carregaria o alto nível de rejeição a seu sobrenome, não teria o carisma do pai nem contaria com o apoio entusiasmado de expoentes do Centrão, do mercado financeiro e do empresariado. Era tamanha a euforia que os petistas definiram como estratégia poupar o Zero Um de ataques até o registro das candidaturas e o início oficial da campanha eleitoral, a fim de não desidratá-lo e, assim, impedir que ele fosse substituído no páreo por outro nome, como o governador Tarcísio de Freitas, considerado pelos esquerdistas o quadro da direita mais difícil de ser derrotado. No PT, a postulação de Flávio Bolsonaro era vista como um passaporte seguro para a reeleição de Lula. A uma semana da votação, essa crença ruiu, obrigando o presidente a fazer uma série de manobras de emergência na tentativa de evitar um revés.
Segundo as pesquisas de intenção de voto, Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados nas simulações de segundo turno, sendo que em pelo menos uma delas o senador aparece numericamente à frente (veja o quadro). A novidade é o crescimento do oposicionista também nos cenários de primeiro turno, nos quais ele passou a empatar, dentro da margem de erro, com o presidente. O avanço do rival fez Lula intensificar o anúncio de medidas eleitoreiras e as promessas de apelo popular. Nem o discurso na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas — proferido na terça-feira 22, em Nova York — escapou da lógica de palanque. Em linha com seu antigo sonho de ser reconhecido como líder global e premiado com o Nobel da Paz, Lula criticou a derrocada do multilateralismo, os conflitos armados e as ameaças militares e até tarifárias feitas por grandes potências. Cuidadoso, ele não mencionou o nome de Donald Trump, a quem endereçou boa parte de sua pregação. Os assuntos da diplomacia, no entanto, logo deram lugar à eleição brasileira.

Numa sucessão de frases pensadas para render cortes para as redes sociais, Lula desfiou quase todo o seu rosário eleitoral. Mais uma vez, ele empunhou, por exemplo, a bandeira da soberania nacional: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. De forma indireta, criticou o suposto entreguismo de Flávio Bolsonaro, que estaria evidente, entre outros, no entusiasmo que o Zero Um demonstrou certa vez com a possibilidade de os Estados Unidos atacarem barcos de traficantes na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, declarou.

Tratando de pautas domésticas em um fórum destinado a debates de interesse global, Lula ainda defendeu o Pix e o fim da escala de trabalho 6×1, que contam com o apoio da maioria da população, e voltou a resumir a sucessão presidencial, como fez em 2022, a uma disputa entre democracia e autoritarismo. “Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”, afirmou. A campanha de Flávio Bolsonaro não gostou da exploração eleitoral do púlpito na ONU e recorreu ao TSE para impedir que a propaganda eleitoral do PT use trechos do discurso de Lula, que foi aplaudido em pelo menos três ocasiões.

Já o escrete do presidente, acossado pelo temor de uma derrota, está empenhado num ajuste de rota. A ideia é que ele pose cada vez menos de governante ocupado com questões estratégicas e abrace cada vez mais a causa de candidato. Nos últimos meses, petistas reclamaram do fato de Lula fazer uma campanha descolada da realidade da maioria da população, priorizando temas como terras-raras e deixando em segundo plano a criminalidade e a carestia, exploradas à exaustão pelos adversários. Essas queixas produziram efeito. No último dia 17, o presidente anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família, programa que beneficia cerca de 50 milhões de pessoas. Divulgada a dezessete dias do primeiro turno, a medida custará 5,8 bilhões de reais neste ano e 22,7 bilhões de reais em 2027. O valor do repasse mínimo por família subirá de 600 reais para 691 reais.

Como de praxe, o governo tentou rechaçar o evidente caráter eleitoreiro da iniciativa e disse que seu objetivo foi repor as perdas inflacionárias registradas desde 2023. Na prática, no entanto, Lula quer consolidar sua força na base da pirâmide social, que anda contrariada com o custo de vida. Levantamentos da BTG/Nexus revelam que as intenções de voto dos beneficiários do Bolsa Família nas simulações de primeiro turno têm variado. Nesse segmento, Lula chegou a ter 52 pontos de frente sobre Flávio Bolsonaro no final de julho. No início de setembro, a vantagem caiu para 25 pontos. Já na rodada divulgada no último dia 21, a diferença voltou a subir para 47 pontos. Especialistas dizem que essas oscilações expressivas são comuns nos subgrupos das pesquisas, que têm margens de erro bem maiores do que os tradicionais 2 pontos para mais ou para menos. Lula não quer ter dúvidas sobre o comportamento desse nicho. No caso dos beneficiários do Bolsa Família e dos mais pobres, a meta dele é conquistar e consolidar apoios e — tão importante quanto — garantir que seus eleitores votem.

Em 2022, cerca de 20% da abstenção foi de cidadãos de baixa renda e baixa escolaridade. Dependendo da abstenção nesses grupos, não está descartada a possibilidade de Flávio Bolsonaro ficar em primeiro lugar até no primeiro turno. No entorno do senador, os mais entusiasmados nutrem a esperança de liquidar a fatura já no dia 4 de outubro. A VEJA, um dos coordenadores da campanha do Zero Um mostrou-se mais realista, dizendo que a sucessão presidencial terá dois turnos. Com sete candidaturas ao Planalto no currículo e recordista em vitórias via voto direto, Lula sabe da importância de chegar à rodada final sem passar a impressão de que será derrotado. Ele está seguindo à risca o mantra de sua pupila Dilma Rousseff, que consagrou a máxima segundo a qual se faz o diabo em época de eleição. O presidente também mantém a toada de seu antecessor Bolsonaro, o pai, que colocou na rua um pacote bilionário de bondades antes da eleição de 2022.

Na época, o capitão aumentou o Bolsa Família em 50%, de 400 para 600 reais. Seu filho Flávio Bolsonaro, com conhecimento de causa, classificou o recente reajuste do Bolsa Família de ato de desespero: “Essa merreca? Não tem vergonha na cara não, Lula? Está achando que vai comprar o voto do pobre dando mais 90 reais por mês?”. As últimas propagandas eleitorais de Lula revelam a preocupação dele com o bolso do eleitor. Numa delas, o petista tratou basicamente do custo de vida, dizendo que era mais alto no governo Bolsonaro e que está fazendo o possível para reduzir os preços de alimentos e combustíveis. Foi uma reação à estratégia do Zero Um de produzir vídeos para as redes sociais nos quais faz compras nos supermercados, demonstra espanto com a carestia e conclui que falta dinheiro para encher o carrinho e fechar o mês. Durante a maior parte de seu terceiro mandato, o presidente se sentiu injustiçado porque, apesar do baixo desemprego e do aumento da renda média do trabalhador, a população de forma majoritária reprovava — e ainda reprova — a gestão econômica.

Inconformados, petistas estrelados chegaram a reclamar de que o povo sofria de dissonância cognitiva. O queixume só demonstra como o partido se distanciou do chão de fábrica e demorou a reconhecer o peso negativo na popularidade presidencial do endividamento recorde das famílias brasileiras. Neste ano, já com a reeleição no horizonte, Lula abriu uma nova rodada de renegociação de débitos. Como ela não foi capaz de solucionar a questão, a equipe econômica trabalha em novas medidas para aliviar as finanças do eleitorado. Em outra de suas propagandas eleitorais, o presidente, que nunca foi de reconhecer os próprios erros, tentou terceirizar para as bets a responsabilidade pelo nível de endividamento. No vídeo, Lula ouve relatos de dependentes em apostas on-line que passaram a dever grandes quantias para agiotas e perderam bens, como carro e imóvel, em razão da jogatina. “Todo mundo sabe que eu tenho vontade de acabar com as bets”, declara o presidente na propaganda.

Se agir agora contra a jogatina, o petista remediará uma situação para a qual contribuiu de forma decisiva. De olho numa perspectiva de arrecadação de 12 bilhões de reais anuais, Lula decidiu regulamentar o setor de apostas on-line, que funcionou livremente, à margem da lei, na gestão Bolsonaro. A legalização foi um passo acertado e rendeu dinheiro para o caixa da União, mas o Planalto não fez o suficiente para evitar um efeito colateral: trabalhadores comprometendo a renda com as bets e se endividando cada vez mais. Mais de 43 milhões de brasileiros já fizeram apostas eletrônicas. Só em 2025, foram desembolsados 62,5 bilhões de reais. “Ninguém pode gastar o leite da família jogando”, diz Lula na propaganda. Como o tema se tornou caro a uma parcela significativa do eleitorado, o presidente prepara medidas dedicadas a restringir a atuação das empresas do setor. Essas iniciativas são consideradas estratégicas para sensibilizar a parcela do eleitorado que não se alinha de forma automática nem a Lula nem a Flávio Bolsonaro.
Com a polarização cristalizada, os ditos independentes devem ser o fiel da balança da eleição. Eles fogem da guerra ideológica e querem soluções para as mazelas do dia a dia. Os demais concorrentes à Presidência sabem disso, tanto que priorizam temas candentes. Augusto Cury e Romeu Zema, por exemplo, cobram investigação dos ministros do Supremo suspeitos de participar da rede de traficâncias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Já Ronaldo Caiado e Renan Santos apostam as fichas na área da segurança pública. Nenhum deles parece ter chance de chegar ao segundo turno. Seus eleitores, conforme as pesquisas, devem migrar principalmente para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Embalado pelas pesquisas, o senador está se reaproximando de caciques do Centrão que preferiram até aqui a neutralidade na sucessão presidencial. A Lula resta tentar conquistar quem está indeciso ou não tem o voto consolidado. Nesse esforço, vale tudo, até prometer a distribuição de canetas emagrecedoras através do SUS, como ele fez recentemente. São as cartadas finais do presidente no cada vez mais disputado jogo da eleição presidencial.
Com Veja







