A Polícia Federal afirmou, em relatório de maio deste ano, ter identificado “robustos indícios da prática de crimes de corrupção ativa e passiva e lavagem de ativos” em diálogos entre o ex-sócio do Banco Master Augusto Lima e o senador Jaques Wagner (PT-BA), que, à época das mensagens, era líder do governo no Senado. Depois de ter sido alvo de busca e apreensão da PF e de suspeitas sobre supostas vantagens financeiras que teria recebido do empresário, como a compra de um apartamento na planta em um condomínio em bairro nobre de Salvador (BA), o parlamentar anunciou seu afastamento da função de representação do Palácio do Planalto em junho.
“A partir dos diálogos analisados, formula-se a hipótese criminal de que, ao menos entre 2023 e 2025, o senador da República JAQUES WAGNER, diretamente ou por meio de seu enteado, EDUARDO SODRE, solicitou e recebeu, em decorrência do cargo ocupado, vantagens indevidas de AUGUSTO FERREIRA LIMA. Dentre estas vantagens indevidas estariam um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões e transferências de valores que somariam ao menos R$ 3,5 milhões, dentre outros benefícios”, diz relatório da PF.
Nesta sexta-feira, 11, o relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, retirou o sigilo de todos os processos relativos à maior fraude bancária da história do país, inclusive aqueles que se debruçam sobre a extensão da teia do ex-dono do banco Daniel Vorcaro sobre autoridades dos Três Poderes da República.
Procurada, a defesa do senador Jaques Wagner disse que apresentou petição ao gabinete do ministro André Mendonça, no dia 30 de junho, “contestando, com dados e fatos, as onze hipóteses de ilegalidade produzidas em inquérito da Polícia Federal, ao qual os advogados do senador só tiveram acesso — e parcial — seis dias antes”.
“É estranho que o levantamento de sigilo contemple, até o momento, apenas a interpretação da polícia, permanecendo a defesa desconhecida da sociedade. O senador Jaques Wagner reitera que nunca teve negócios com o Banco Master, nunca atuou como intermediário de interesses do banco e nunca votou a favor de projetos de lei que poderiam beneficiá-lo. Sua atuação sempre foi contrária aos interesses do banco”, acrescenta.
Um dos indícios destacados pelos investigadores reside nas constantes atualizações que Augusto Lima fornecia a Jaques Wagner sobre a chamada “emenda Master”, que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) apresentou para alterar uma Proposta de Emenda à Constituição que estabeleceria a autonomia financeira e orçamentária do Banco Central. Nogueira propôs aumentar o valor máximo de investimentos que o Fundo Garantidor do Crédito (FGC) cobriria — categoria em que se enquadrava grande parte dos títulos oferecidos pelo Master — de 250.000 reais para 1 milhão de reais.
Depois da eclosão do escândalo e da liquidação do banco de Vorcaro, o FGC desembolsou, só no primeiro semestre deste ano, 40,2 bilhões de reais a investidores e clientes de instituições ligados ao Master.
Em 25 de agosto de 2024, o então líder do governo Lula no Senado gravou um áudio para Augusto Lima no WhatsApp afirmando que precisava “conversar (…) para saber como estavam as coisas do banco” — na avaliação da PF, uma clara referência ao Master. Dois dias depois, na sequência do que investigadores acreditam ter sido uma reunião presencial entre os dois, o empresário ligado ao conglomerado de Vorcaro enviou ao parlamentar a tal “emenda Master” de Ciro Nogueira.
Dois meses depois, Lima enviou ao petista uma notícia relacionada ao Will Bank. “Para você que sei que vibra com o nosso sucesso”, escreveu. “É de vocês?”, questionou Wagner. “Nosso !! Will Bank. 8 mm (milhões) de clientes maioria no nordeste (sic)”, respondeu o então sócio do grupo Master. O senador perguntou: “Qual diferença entre o master e este?”, ao que Lima escreveu: “Somos donos do Will.” Na sequência, o empresário encaminhou o link de reportagem segundo a qual o Ministério da Fazenda, à época comandado por Fernando Haddad, queria barrar a emenda que quadruplicaria o limite de cobertura do FGC.
O relatório da PF também mostra que, em contato com um jornalista, Daniel Vorcaro disse que os então ministros Alexandre Silveira, de Minas e Energia, e Rui Costa, da Casa Civil, hoje candidato ao Senado pelo PT da Bahia, além do próprio Jaques Wagner, seriam favoráveis à ampliação do limite do Fundo Garantidor do Crédito, na contramão de Haddad.
“O próprio VORCARO atribuía ao Senador posicionamento favorável à operação de aquisição do Banco Master pelo BRB – operação de natureza essencialmente regulatória, sujeita a critérios técnicos do Banco Central –, sugerindo percepção, no âmbito dos interlocutores, de possível alinhamento político”, escrevem os investigadores no documento.
O relatório aponta outros indícios do envolvimento do parlamentar petista: “Além dos episódios acima descritos, os autos revelam padrão recorrente de envio de notícias relacionadas ao Banco Master ao Senador JAQUES WAGNER por AUGUSTO FERREIRA LIMA, compreendendo os seguintes registros documentados: notícias sobre mudanças na estrutura acionária do grupo Master (setembro de 2024); elevação do rating do Banco Master pela agência Fitch (outubro de 2024); aprovação pelo BRB da aquisição do controle acionário do Master (março de 2025); aprovação de requerimento no Senado Federal para que o Presidente do Banco Central prestasse informações sobre a operação BRB/Master (abril de 2025); e atualização do número de assinaturas para instalação da CPI do Master (abril de 2025).”
Com Veja







