Inflação dos alimentos já provoca os primeiros embates entre Lula e a oposição

Pesquisas revelam que a maioria dos brasileiros tem a percepção consolidada da escalada dos preços

O senador Flávio Bolsonaro postou em suas redes sociais no último domingo um vídeo no qual percorre as gôndolas de um supermercado de Brasília, coloca no carrinho itens como leite, ovos, café, detergente, picanha e cerveja e, no final, se diz assustado com o valor da conta. Na semana anterior, o candidato do PL à Presidência da República já tinha feito a mesma coisa, só que em um açougue, onde aparece comprando ingredientes para um churrasco. Afirma que gastou todo o dinheiro que tinha no bolso — 100 reais — com um pedaço de coxão mole, um pacote de farofa e uma bandeja de pão de alho. A picanha, ressaltou, estava cara demais e teve de ser deixada na prateleira. As duas performances funcionaram como ensaios para um dos assuntos que os oposicionistas pretendem explorar à exaustão na campanha: o custo dos alimentos. Pesquisas revelam que a maioria dos brasileiros tem a percepção consolidada da escalada dos preços. Em tempos de eleição, esse cenário desperta o pessimismo e é capaz de acelerar a deterioração da imagem do governante, seja ele quem for. O bolso é e continuará sendo um poderoso cabo eleitoral em outubro. Flávio sabe disso. O presidente Lula, mais do que qualquer outro, também.

Gráfico de linhas sobre a percepção dos eleitores sobre o preço dos alimentos de janeiro a julho. A linha vermelha, Subiu, começa em 58% e termina em 66%. A linha cinza, Ficou Igual, começa em 24% e termina em 23%. A linha azul, Caiu, começa em 16% e termina em 9%

Na campanha de 2022, o petista, então candidato de oposição, explorou o tema o quanto pôde, usando, inclusive, os mesmos argumentos e os mesmos métodos de seu atual adversário. Em um evento realizado na cidade de São Paulo na época, ele reuniu mulheres para falar sobre o custo de vida. Uma militante apareceu com um carrinho de supermercado abarrotado de alimentos. “No seu governo era assim”, disse ela. Na sequência veio outra, com o carrinho praticamente vazio. “Aqui só tem farinha, pão e uma caixa de leite. Essa é a nossa realidade hoje”, completou. O petista, apontando para o carrinho vazio, destacou que aquilo era uma vergonha, culpou o governo de então pelo descaso com os mais pobres e reafirmou o compromisso de mudar as coisas. Mais tarde, numa entrevista em que tentava transmitir otimismo sobre a política econômica que pretendia implementar, prometeu que, em caso de vitória, os menos favorecidos poderiam voltar a fazer churrasco com picanha e cerveja. A metáfora virou um prato cheio para a oposição, um símbolo da carestia dos alimentos e estrela das peças publicitárias oposicionistas.

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DESGASTE - Lula: picanha cara virou símbolo do fracasso econômico
DESGASTE - Lula: picanha cara virou símbolo do fracasso econômico (Ricardo Stuckert/PR)
Gráfico de barras vermelhas e brancas em fundo preto mostrando o preço do quilo da picanha em reais. Em 2022, o preço era R$ 73,80. Em 2026, R$ 90,17. A variação foi de +22,18%

Segundo uma pesquisa recente da Genial/Quaest, 66% dos brasileiros acham que os preços dos alimentos continuam subindo. Em janeiro, o índice era de 58%, atingindo 72% em abril (veja o quadro). Apesar da ligeira queda no mês passado, é um problema que incomoda grande parte dos 158 milhões de eleitores, e a campanha do PT terá de lidar com isso. Alguns fatores explicam essa percepção. De um modo geral, as famílias estão muito endividadas, as guerras provocaram o aumento dos combustíveis, refletindo diretamente nos alimentos, e, apesar da desaceleração da inflação registrada no mês de junho, os preços não caíram, consolidando a imagem de que a economia vai mal. No mesmo levantamento, 68% dos entrevistados afirmaram que o poder de compra dos brasileiros também caiu nos últimos anos. No mês anterior, esse número era de 67%. “Isso certamente interfere no humor da população e, lá na frente, pode influenciar o eleitor na hora de definir o seu candidato a presidente, particularmente entre aqueles que se apresentam como indecisos”, ressalta Rafael Barros Barbosa, professor de Economia Aplicada da Universidade Federal do Ceará.

VIRALIZOU - Flávio: vídeos exploram insatisfação com o custo de vida
VIRALIZOU - Flávio: vídeos exploram insatisfação com o custo de vida (./Reprodução)
Gráfico de barras em fundo preto mostrando o preço médio da lata de cerveja (350 ml) em reais. Em 2022, o valor era 4,50. Em 2026, subiu para 4,80. A variação é de +6,6%, indicada em um círculo vermelho.

Hoje, de acordo com as pesquisas, um contingente de 18 milhões de eleitores ainda não sabe em quem votar. É principalmente para essa fatia da população que o candidato do PL pretende massificar a ideia de que a carestia é culpa do governo. Desde o início do ano, Flávio Bolsonaro já vinha sendo aconselhado pelo coordenador de sua campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), a utilizar a alta de preços dos alimentos, a perda de poder aquisitivo e o endividamento da população como munição para atacar Lula. Os vídeos divulgados recentemente pelo Zero Um nos supermercados fazem parte dessa estratégia. “Picanha maturada a vácuo: 88,90 reais o quilo. O preço está salgado”, afirmou o pré-candidato na gravação, ressaltando que, na gestão do pai, o corte era vendido a 49,98 reais. A cerveja, a outra estrela da propaganda oposicionista, teria dobrado de preço em relação a 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro. Depois de repetir o mesmo roteiro com vários alimentos, o senador vai ao caixa com o carrinho contendo alguns poucos produtos e reclama do valor da conta: 908 reais. “Realmente, o poder de compra do brasileiro acabou. Se a gente não mudar o destino desse país a partir do ano que vem, é assim que vai ficar seu carrinho”, finalizou ele.

MENTIRAS - Guilherme Boulos: ministro acusa o opositor de usar dados falsos nas redes sociais
MENTIRAS - Guilherme Boulos: ministro acusa o opositor de usar dados falsos nas redes sociais (./Reprodução)
Gráfico de barras vermelhas sobre fundo preto, mostrando o valor da Cesta Básica em reais. Em 2022, o valor era de 791,29. Em 2026, subiu para 952,20. Um círculo vermelho indica variação de +20,33%

O governo, por sua vez, acusou o golpe e escalou Guilherme Boulos, chefe da Secretaria de Relações Institucionais, para rebater os ataques. O ministro chamou Flávio de mentiroso e disse que os valores usados para fazer as comparações foram manipulados de modo a transparecer que os preços aumentaram muito durante a gestão petista. “A malandragem está na data. Ele quis comparar os preços do governo Bolsonaro com os preços de hoje, só que ele pegou o ano de 2019, quando o pai dele tinha acabado de entrar no governo”, disse o ministro, ressaltando que a comparação correta deveria ser feita com o final do mandato, em 2022. Na sequência, Boulos, que também postou um vídeo nas redes sociais, vai retificando as conclusões do parlamentar. “A caixa com trinta ovos custava, na verdade, 23,90 reais. Perceberam o truque? Mais uma vez, Flávio Bolsonaro tenta enganar as pessoas. Um cara que manipula e mente até no mercado não merece a confiança de ninguém”, finalizou o ministro.

MASSIFICAÇÃO - Marinho: estratégia será usada na propaganda eleitoral
MASSIFICAÇÃO – Marinho: estratégia será usada na propaganda eleitoral (Carlos Moura/Agência Senado)
GRAVE RETROCESSO - Posto de combustível: a ANP reduziu a fiscalização após o corte de verbas
GRAVE RETROCESSO – Posto de combustível: a ANP reduziu a fiscalização após o corte de verbas (Alf Ribeiro/Getty Images)
Gráfico de barras vermelho e preto mostrando o preço da gasolina. Em 2022, o litro custava R$ 4,96. Em 2026, o valor subiu para R$ 6,58, representando uma variação de +32,66%

A reação rápida da equipe de campanha de Lula tem explicação. Um estudo elaborado pela gestora de capitais Kinitro mostra a relevância que a inflação dos alimentos pode ter na campanha presidencial. Segundo a empresa, a redução de 1 ponto percentual no poder de compra da população resulta numa queda automática de 0,4 ponto na avaliação positiva do governo ao longo de um trimestre. A carestia inclusive neutraliza os reflexos de indicadores positivos da economia, como emprego e renda. O trabalho também ressalta que a avaliação do governo Lula encontra resistência em vários segmentos porque o bem-estar dos brasileiros permanece aquém da memória afetiva de consumo que as famílias tinham entre 2010 e 2015, quando o brasileiro médio tinha condições de comprar quase três cestas básicas com sua renda líquida. Hoje, esse índice caiu 20% em comparação àquele período. “O termômetro da popularidade do governo é a solvência do orçamento doméstico. Em outras palavras, quando o poder de compra da alimentação cai, a avaliação do governo cai junto. Isso quer dizer que, em um cenário polarizado, sucessivas perdas de poder de compra são suficientes para derreter o capital político de qualquer incumbente”, destaca o documento. É por isso que a oposição planeja investir boa parte de suas fichas nesse embate, em que Lula tem muito a perder.

Com Veja

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