Os fatores que abalam hegemonia do PT no Nordeste e abrem espaço a outras siglas

Até a virada dos anos 2000, o eleitorado do Nordeste, que representa 27% do total do país, era mais plural e repartia seus votos entre diferentes forças políticas. Esse cenário, porém, transformou-se rapidamente a partir da chegada de Luiz Inácio Lula da Silva, pernambucano de Garanhuns, à Presidência da República, em 2003. A combinação de um ciclo de crescimento econômico com novos programas sociais, como o Bolsa Família, impactou a preferência política do nordestino e transformou a área em um bastião da esquerda — tanto Lula em 2022 quando Fernando Haddad em 2018 venceram em seus nove estados, com votações que superaram os 70%. A fortaleza vermelha, no entanto, não está mais tão firme. Pesquisas recentes apontam possível mudança nesse cenário, com uma guinada em direção à direita e ao centro político.

EM RISCO - João Campos: dificuldade para recolocar o PSB à frente no estado
EM RISCO - João Campos: dificuldade para recolocar o PSB à frente no estado (@joaocampospsb/Facebook)

A retração em seu maior reduto eleitoral preocupa o PT. O partido tem hoje quatro governadores, todos eles na região: Bahia (Jerônimo Rodrigues), Ceará (Elmano de Freitas), Piauí (Rafael Fonteles) e Rio Grande do Norte (Fátima Bezerra). Para este ano, a sigla lançou nomes em cinco estados, mas só lidera com Fonteles no Piauí e com Cadu Xavier no Rio Grande do Norte. Na Bahia e no Ceará, os governadores terão dificuldades para renovar seus mandatos. Aliado histórico do PT e também forte na região, o PSB, que governa Paraíba e Maranhão, pode perder os dois. Em todas as possibilidades de revés da esquerda, o nome a ocupar o espaço vem de siglas do Centrão (União Brasil e PP), do PSD e até do PSDB, que lidera em Alagoas — com o ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC — e no Ceará — com o ex-governador Ciro Gomes (veja o quadro).

Infográfico

Vários fatores explicam o provável refluxo da esquerda. Um deles é a fadiga natural com os sucessivos governos desse campo — na Bahia, o PT está no poder há vinte anos e quer o sexto mandato. O mau desempenho em áreas sensíveis, como segurança pública, tema central ao eleitor, também cria dificuldades ao petismo. Bahia e Ceará estão há anos no topo do ranking nacional das estatísticas de violência.

Também tem sido decisivo o fato de os programas sociais não terem o mesmo impacto, como reconheceu um dos caciques petistas da região, o ex-governador do Ceará Camilo Santana. Para o cientista político Murilo Medeiros, da UnB, a emergência de uma nova classe média urbana alterou o comportamento eleitoral. “O povo é muito sensível à inflação, ao custo de vida, à mobilidade urbana, à sensação de segurança, e cobra resultados concretos, e não apenas políticas distributivistas. O nordestino quer ir além do mínimo oferecido pelo Estado”, avalia.

TÁTICA - ACM Neto: seu esforço para derrotar o PT na Bahia não inclui, por ora, o apoio a Flávio Bolsonaro
TÁTICA - ACM Neto: seu esforço para derrotar o PT na Bahia não inclui, por ora, o apoio a Flávio Bolsonaro (@ACMNetoOficial/Facebook)

Curiosamente, em alguns casos, o avanço das forças mais à direita não ocorre graças ao enfraquecimento de Lula. O petista é ainda um grande cabo eleitoral por ali. Em vários estados, os candidatos mais competitivos aos governos procuram associar sua imagem ao petista. Na Paraíba, o candidato do PP, o governador Lucas Ribeiro, será apoiado pelo PT. Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri, do PSD, também terá Lula em seu palanque. Para Priscila Lapa, cientista política da UFPE, apesar de haver polarização no âmbito nacional entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), o voto regional pragmático tem ganhado mais peso nos estados porque há um descolamento do eleitor: “Na cabeça do eleitor coerente, é possível ter um projeto nacional ao qual ele se filia e, ao mesmo tempo, outro projeto local que ele entende ser melhor para a sua região”.

APOSTA - JHC: ex-prefeito de Maceió pode reconduzir o PSDB ao comando de um estado na região
APOSTA - JHC: ex-prefeito de Maceió pode reconduzir o PSDB ao comando de um estado na região (@jhc/Facebook)

Um dos estados que mais bem ilustram essa complexidade é Pernambuco, terra natal de Lula. Ex-prefeita de Caruaru, a governadora Raquel Lyra (PSD) tirou o PSB do poder em 2022 com um discurso de neutralidade em relação à polarização nacional. Agora, ela tenta se valer da mesma estratégia para derrotar o ex-prefeito de Recife João Campos, herdeiro político dos ex-governadores Miguel Arraes e Eduardo Campos (seu bisavô e seu pai), que tenta levar o PSB de volta ao poder. Enquanto Campos se define como “soldado de Lula” e possui a vantagem de ter o PT em sua coligação, Raquel explora a boa relação com o presidente e as parcerias que firmou com o governo federal, mesmo que para “projetos de direita”, como a privatização do metrô de Recife. A estratégia começa a dar resultado — no Datafolha de maio, ela virou sobre o rival (48% a 43% no primeiro turno) e acirrou uma eleição que só tem dois candidatos competitivos e pode ser decidida sem precisar de segundo turno.

EXCEÇÃO - Rafael Fonteles: dos três governadores do PT que tentam reeleição, o piauiense é o único a liderar pesquisa
EXCEÇÃO - Rafael Fonteles: dos três governadores do PT que tentam reeleição, o piauiense é o único a liderar pesquisa (Geirlys Silva/.)

A retração da esquerda também não significa um avanço da direita bolsonarista. Flávio Bolsonaro chegou a anunciar que a retomada do Nordeste seria um de seus objetivos e até posou com uma camiseta na qual se lia que o “Nordeste é solução”. O esforço, porém, ainda não deu resultado. Dos nove estados nordestinos, o PL só disputará o governo em Sergipe, mas está em terceiro lugar (com o vice-prefeito de Aracaju, Ricardo Marques), atrás de dois nomes de centro: o PSD do governador Fábio Mitidieri e o Republicanos do ex-prefeito de Itabaiana Valmir de Francisquinho. Em outros estados, o PL compõe chapa com candidatos ao governo que não vão se empenhar por Flávio, como ACM Neto (União Brasil) na Bahia, Ciro Gomes (PSDB) no Ceará e a própria Raquel Lyra em Pernambuco. “Apoiar o Flávio seria um tiro no pé. A avaliação é que o melhor cenário é o ACM Neto apoiar a candidatura de Caiado”, conta uma fonte ligada ao cacique baiano.

PROBLEMA - Lula, Geraldo Alckmin e as primeiras-damas em Serra Talhada (PE) em 2022: queda nas intenções de voto
PROBLEMA - Lula, Geraldo Alckmin e as primeiras-damas em Serra Talhada (PE) em 2022: queda nas intenções de voto (Ricardo Stuckert/.)

Apesar das dificuldades do bolsonarismo, a involução petista no Nordeste acende o alerta para Lula. Na pesquisa Genial/Quaest de maio, o presidente tinha 61% das intenções de voto na região em um segundo turno contra Flávio, mas esse percentual era de 69% em janeiro deste ano — o adversário, por outro lado, foi de 21% para 28%. Para Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, nada está definido porque a campanha ainda vai abrir margem para a esquerda recuperar ou perder mais espaço na região, a depender da estratégia escolhida. “Em especial no Nordeste, Lula precisa fazer um mea-culpa e dizer que conseguirá entregar o que não conseguiu no atual mandato”, diz. A quatro meses da votação, com uma campanha marcada por reviravoltas seguidas no debate eleitoral, todo cuidado para Lula e o PT é pouco. A fortaleza de outrora pode deixar de ser o local eleitoralmente seguro de outros anos.

Com Veja

COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA

Facebook
Twitter
WhatsApp
BV SITE – 728×90.jpg.jpeg