Zizo Mamede: Pelo avesso

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Quando paixão e o ódio são faces da mesma moeda as pessoas cegam, reescrevem histórias e acreditam nos próprios equívocos, erros, quando não engodos.
Por exemplo, justificar o golpe contra a presidenta Dilma alegando que o PT, comandado por José Dirceu, defendeu o impedimento do mandato de Fernando Henrique Cardoso. Como José Dirceu é a “Geni” da temporada, a mentira pode colar se não for desmentida.
Foi exatamente o contrário: José Dirceu foi um dos dirigentes do Partido dos Trabalhadores que na década de 1990 liderou os processos de exclusão e de expulsão dos agrupamentos que defenderam o “Fora FHC”. Vários agrupamentos saíram do PT, dando origem a partidos de extrema esquerda como o PSTU.
Os erros do PT e de Dirceu são outros, mas não há nenhuma resolução partidária pelo impedimento de qualquer presidente da República. Falar ao contrário disto é contar a história pelo avesso.
No Brasil contemporâneo, o absurdo do avesso é conviver com a maior inversão de valores da história do país: O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o multi-denunciado por crimes de corrupção, comandar um processo de impeachment de uma presidenta reconhecidamente honesta, por seus adversários aqui e por amplos setores da chamada opinião pública no exterior.
Pior é saber que aqueles que se unem a Eduardo Cunha na empreitada para derrubar a presidenta Dilma Rousseff são, por ampla maioria, políticos como o vice-presidente Michel Temer, acusados de prática de corrupção, delatados em várias investigações e respondendo por crimes na justiça brasileira e no exterior.
Políticos delatados, indiciados, denunciados por prática de corrupção, comandados pelo mega-corrupto Eduardo Cunha, em conluio para golpear “uma das raras figuras da política brasileira que não tem suspeita ou acusação de enriquecimento ilícito” como mancheteou reconhecido jornal dos Estados Unidos. – Isto é uma história azavessada.
Como sempre pode piorar, porque a história não transcorre necessariamente em estágios sucessivos para melhor. E piorou: o país se depara com a mais alta corte da Justiça, o Supremo Tribunal Federal (STF), assistindo ao espetáculo do impeachment comandado por um Eduardo Cunha que é réu no próprio STF, denunciado pelo roubo de dinheiro do Estado brasileiro.
Um réu do Supremo Tribunal Federal comandando uma denúncia para tentar derrubar uma presidenta contra a qual não há uma única denúncia de desonestidade – “Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso?”
Quando as paixões serenarem – e o ódio é uma paixão com sinal negativo – as pessoas lerão nos livros de história como perderam o bom senso e, açoitados por uma mídia que tem ódio de classe, ajudaram Cunha, Temer, Cássio, Paulinho, Aécio, Alkmin, Richa, Maluf, Geidel, Agripino Maia e toda a sua turma a contar uma narrativa pelo avesso.
Quando as paixões refluírem e as pessoas que hoje odeiam e agem em manadas – porque o ódio faz das pessoas autômatos – recuperarem a autonomia, como frisa Marilena Chauí dialogando com Spinosa, talvez, resgatem a capacidade de pensar e de auto-crítica. Talvez venham a se envergonhar do erro de marchar com os corruptos, contra uma rara figura honesta na política brasileira.
Em tempo de tempos sombrios: “Nada a temer, senão o correr da luta. Nada a fazer senão esquecer o medo.”

Por: Junior Queiroz em 14 de abril de 2016

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